03
nov
11

Escritor mineiro é premiado por romance histórico

Benito Barreto receberá prêmio na Academia Brasileira de Letras na próxima sexta

 

 

O livro Toque de silêncio em Vila Rica, do escritor mineiro Benito Barreto, receberá o prêmio “José Afrânio Moreira Duarte”, concedido pela diretoria da União Brasileira de Escritores, seção Rio de Janeiro (UBE-RJ), como melhor romance histórico do ano. A solenidade de premiação será realizada na próxima sexta-feira, 28 de outubro, às 15h, no Teatro R. Magalhães Jr., na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro.

 

Toque de silêncio em Vila Rica é o terceiro volume da tetralogia Saga do Caminho Novo, que em 2010 já havia sido contemplada como melhor romance histórico do ano com o prêmio “João Felício dos Santos”, também concedido pela UBE-RJ. “Os prêmios da União Brasileira de Escritores me gratificam e comovem profundamente, como reconhecimento e aplauso que são ao meu trabalho. O galardão é tão mais significativo porque emana de uma das entidades mais representativas da cultura e da literatura em nosso país”, afirma Barreto.

 

“Os prêmios têm um significado a mais, para mim, por virem do Rio de Janeiro e valorizarem uma obra que recria a fundação e os fundamentos do Brasil no seu todo, como nação, mas trabalha sobretudo com uma matéria prima mineira, com a história de Minas Gerais”, pontua o autor.

 

 

Desfecho da Saga

 

Para Benito Barreto, os últimos meses foram de trabalho intenso para chegar ao final da Saga do Caminho Novo. O autor terminou agora em outubro a redação do livro Despojos: a festa da morte na corte, que será lançado em abril de 2012. “O quarto e último volume da Saga já está pronto, em processo de revisão. Este livro, porém, custou-me bem mais que os outros, porque é o estuário, por assim dizer, dos três primeiros. Ele recebe e absorve todos os cortes, acréscimos, mudanças, nascimentos e mortes que foram acontecendo no curso da Saga”, explica o autor.

 

Desde 2009, ano em que completou 80 anos, o romancista produziu quatro livros, que somam cerca de duas mil páginas dedicadas à história dos inconfidentes. “A sensação do objetivo alcançado, da missão cumprida é, certamente, algo bom e gratificante para qualquer um de nós. É inegavelmente compensador, me conforta e alegra cumprir com a promessa, que eu chamaria até de dívida, para com o público que me tem acompanhado”, afirma Barreto.

 

 

Festa da morte na corte

 

“A Saga recria a Inconfidência em toda a sua abrangência e multiplicidade, como nunca antes. Os livros narram o momento histórico da concepção e primeiros passos, em Minas, da independência e fundação do Brasil como povo e nação, com o empenho de tantos e a perda de muitas vidas nesta luta”, conta Benito.

 

No quarto e último volume da Saga, o Reino responde à insurgência, em Minas, com a repressão aos inconfidentes. Na Capitania, vasta operação militar empreende a caça, dispersão, prisão ou morte dos bandos de garimpeiros armados. Padre Rolim, inconfidente que os convocara e devia chefiá-los, logo virá a ser ferido e preso em combate. Assim, desvanece qualquer hipótese ou esperança de resistência na Capitania rebelada.

 

Finda o ano fatal de 1789 e o território ficcional do livro desloca-se, com os presos, para a capital do Vice-Reino. O Rio de Janeiro já está sendo atingido e, dia após dia, atropeladamente, possuído de tensão e medo. A tragédia iniciada com as prisões e o terror, no Rio e em Vila Rica, vai se completar em 21 de abril de 1792, com a “festa da morte na corte” que dá título ao livro: a execução de Tiradentes e o degredo para a África dos demais inconfidentes.

 

 

 

O prêmio da UBE-RJ

 

A UBE-RJ foi fundada em 1958, mesmo ano de criação da união em âmbito nacional, e concede prêmios para obras literárias de destaque desde então. A premiação, atualmente, é anual e ocorre sempre no mês de outubro. Os nomes dos prêmios homenageiam escritores brasileiros e são renovados ano a ano.

 

O prêmio para o melhor romance histórico de 2011 reverencia o escritor José Afrânio Moreira Duarte, que nasceu em Alvinópolis (MG), em 1931, e faleceu em 2008. Foi contista, ensaísta, crítico literário e poeta. Publicou O Menino do Parque (1966), Fernando Pessoa e os caminhos da solidão (1968), A Muralha de Vidro (1971) e Tempo de Narciso (1975), dentre outros.

 

Na edição 2011, a diretoria da UBE-RJ concederá 24 prêmios para categorias como romance, poesia, conto, crônica, tradução e crítica literária, entre outros. Na mesma ocasião, serão contemplados os vencedores do Concurso Internacional de Literatura UBE-RJ 2011 e da Medalha Antônio Olinto.

 

 

O autor

 

Benito Barreto nasceu em 17 de abril de 1929 na cidade de Dores de Guanhães, Nordeste de Minas. Além de escritor, é também jornalista e empresário.

 

Em sua obra literária, destaca-se a tetralogia Os Guaianãs, formada pelos livros Plataforma vazia (1962), Capela dos homens (1968), Mutirão para matar (1974) e Cafaia (1975). A tetralogia recebeu diversos prêmios e teve dois de seus volumes traduzidos para o russo e publicados na antiga União Soviética em 1980, com tiragem de 100 mil exemplares. É uma referência importante da prosa regional brasileira e narra uma heróica história de resistência, tendo como tema principal uma guerrilha rural hipotética nos sertões baianos e mineiros durante as décadas de 1960 e 70.

 

Barreto publicou ainda Vagagem (1978), que se apresenta como um livro de “viagens e memórias sem importância”; A última barricada (1993), romance em folhetins improvisados, que reúne colunas publicadas no jornal Estado de Minas e anotações inéditas, em que ainda ressoam temas e personagens de Os Guaianãs; e Um caso de fidelidade (2000), que reflete as incertezas do mundo globalizado e pós-ideológico que se sucede à derrocada do socialismo.

 

Em 2009 e 2010, publicou Os idos de maio e Bardos e viúvas, que fazem parte da Saga do Caminho Novo. A tetralogia recebeu o prêmio “João Felício dos Santos”, concedido pela União Brasileira de Escritores, seção Rio de Janeiro (UBE-RJ), como melhor romance histórico de 2010.

 

 

 

Informações adicionais e agendamento de entrevistas:

Rachel Barreto – rachelbarreto@globo.com / (31) 8804-4105

 

 

26
jun
11

Entrevista TVUNIBH

10
jun
11

Inconfidência ao alcance do povo

Escritor mineiro Benito Barreto doa 1,6 mil livros para bibliotecas

Bibliotecas públicas de todo o Brasil vão receber, agora em junho, exemplares do último livro do escritor mineiro Benito Barreto, Toque de silêncio em Vila Rica. A doação de 1,6 mil exemplares, por meio da Lei Rouanet, foi recebida pela Fundação Biblioteca Nacional e pela Superintendência de Bibliotecas Públicas de Minas Gerais, que serão responsáveis por repassar os livros para todos os Estados da federação e, em especial, para as 764 bibliotecas municipais mineiras.

O livro foi doado, também, às 22 bibliotecas públicas de Belo Horizonte e às 25 bibliotecas comunitárias da Grande BH. O autor doou, ainda, 240 exemplares das suas obras anteriores – Os idos de maio e Bardos e viúvas.

O escritor destaca a importância da iniciativa para ajudar a incentivar a leitura. “Hoje, com as exceções de sempre, lê-se o que a mídia consagra e aponta. E tal não é o meu caso, nem do meu tema”, afirma. “Entretanto, não se poderá dizer que não me esforcei em lá chegar, ao público e ao leitor”, completa.

Convite ao conhecimento

As três obras fazem parte da tetralogia Saga do Caminho Novo, em que o autor recria, de forma ficcional, a derrocada da Conjuração Mineira de 1789. “Temos, todos nós, um conhecimento escolar e, via de regra, deformado da Inconfidência”, acredita Barreto. Para o escritor, existe uma “desfiguração e descrédito dessa fundamental contribuição de Minas à fundação e independência do Brasil, daí resultando a alarmante indiferença popular por esses homens, suas vidas e seus feitos”.

O autor ressalta que, mais de duzentos anos depois, a Conjuração Mineira tem muito a ensinar aos leitores contemporâneos: “Antes de mais nada, civismo, pois foi uma vigorosa e dramática afirmação do nosso povo, quando ainda em formação. A Inconfidência patenteou a nossa vocação para a independência e a liberdade. E ensina a todos nós, e para todos os tempos, que revolução não se faz sem a arregimentação do povo e a sua ativa participação no movimento”.

“A História de cada povo é seu berço, são as raízes que o ligam e entrelaçam com seu chão, lhe emprestando a chamada cor local e o sotaque, essa coisa intrínseca ou alma nacional de cada povo e que, hoje mais que nunca, há que cultivar e defender”, conclui Barreto.

Incentivo à leitura

“Os livros doados através das leis de incentivo à cultura são sempre muito bem-vindos”, afirma a diretora de Acervo da Superintendência de Bibliotecas Públicas de Minas Gerais, Maria da Conceição Araújo Bernardes. “É um grande incentivo à formação de um hábito de leitura não só para estudantes, mas para aqueles que buscam a literatura pelo prazer”, ressalta.

A diretora destaca, ainda, a importância da distribuição para bibliotecas de regiões mais carentes, que têm dificuldades para reforçar seus acervos. “Em Minas, é o caso das bibliotecas da região Norte do Estado, como os vales do Jequitinhonha e Mucuri. E essas bibliotecas têm um papel fundamental, pois servem de apoio às escolas da região”.

Em Belo Horizonte, as obras serão encaminhadas também à Biblioteca Pública Luiz de Bessa, onde passarão a integrar a Coleção Mineiriana. “É uma coleção de grande relevância, que reúne obras produzidas por autores mineiros, com temática relacionada ao Estado”, explica Conceição Bernardes.

28
abr
11

Entrevista para a rádio Elo Fm

http://www.elofm.com.br/contracapa

19
abr
11

Romance histórico presente nas comemorações da Inconfidência, em Ouro Preto

O romance histórico Toque de silêncio em Vila Rica, do escritor mineiro Benito Barreto, estará presente na solenidade de entrega da Medalha da Inconfidência, no dia 21 de abril, às 10h, em Ouro Preto. Em 2011, o evento homenageia 250 personalidades que contribuíram para o desenvolvimento econômico, cultural e social de Minas e do Brasil. Através de apoio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, o livro será presenteado a cada um dos contemplados com a comenda, dentre eles a presidenta Dilma Rousseff.

“Estou satisfeito, e não pouco, com isso. Quem escreve quer ser lido e o livro, qualquer livro, está a caminho em busca do seu público”, diz Barreto. O autor destaca a importância de participar da solenidade em 2011, junto às comemorações dos 300 anos de Ouro Preto, a antiga Vila Rica do livro. “Este ano, também, os restos desgarrados de três inconfidentes estarão sendo trazidos e juntados aos de seus companheiros, no Museu da Inconfidência. E tudo isso bem no dia e na Praça de Tiradentes. São muitas as coincidências”, completa, lembrando que o livro conta com prefácios do prefeito de Ouro Preto, Ângelo Oswaldo de Araújo Santos, e do vice-governador de Minas, Alberto Pinto Coelho. 

A medalha - A Medalha da Inconfidência é entregue todos os anos a pessoas físicas e jurídicas que tenham contribuído para o desenvolvimento econômico, cultural e social do Estado e do Brasil. Foi criada pela Lei 882, de 1952, pelo então governador Juscelino Kubitschek, e consolidada pelo Decreto 38.690, de 1997. Ela é concedida nos graus Grande Colar, Grande Medalha, Medalha de Honra e Medalha da Inconfidência. Os agraciados recebem também um diploma assinado pelo governador, pelo presidente do Conselho e pelo chanceler da Medalha.

03
abr
11

Romance recria momento trágico da Inconfidência

Toque de silêncio em Vila Rica, de Benito Barreto, será lançado dia 12/4

 

O escritor mineiro Benito Barreto participa, no dia 12 de abril, do projeto Bate papo com o autor, na Academia Mineira de Letras (rua da Bahia 1.466, Lourdes, Belo Horizonte/MG). O evento conta com uma palestra, às 19h30, seguida do lançamento do livro Toque de silêncio em Vila Rica. A entrada é franca e os primeiros 100 exemplares serão vendidos ao preço simbólico de R$5.

 

O livro é o terceiro volume da tetralogia Saga do Caminho Novo, em que Barreto recria, de maneira ficcional, a derrocada da Conjuração Mineira de 1789. Os dois primeiros episódios, Os idos de maio e Bardos e viúvas, mostram o momento crítico no qual se desfez a conspiração e o terror que se seguiu às delações e prisões.

 

Em Toque de silêncio em Vila Rica, esse terror imposto à Capitania pelo visconde de Barbacena se consolida, com maior controle sobre a população e novas prisões. Tiradentes encontra-se em uma masmorra na Ilha das Cobras, enquanto os demais líderes do movimento são presos, torturados, perseguidos ou executados. As hipóteses de resistência à repressão se desvanecem, inviabilizadas pelas dificuldades de comunicação entre os inconfidentes ainda livres e os grupos populares.

 

A Inconfidência ganha vida na reconstrução do autor, que cria sua versão dos acontecimentos históricos mostrando, inclusive, personagens secundários e menos conhecidos do grande público, em um panorama rico e complexo de Minas Gerais na época da Conjuração. A partir de extensa pesquisa histórica, Benito Barreto usa sua prosa em estilo único e inconfundível para mostrar os meandros da Inconfidência.

 

Crédito: Romero Ronconi

O autor

 

Benito Barreto nasceu em 17 de abril de 1929 na cidade de Dores de Guanhães, Nordeste de Minas. Além de escritor, é também jornalista e empresário.

 

Em sua obra literária, destaca-se a tetralogia Os Guaianãs, formada pelos livros Plataforma vazia (1962), Capela dos homens (1968), Mutirão para matar (1974) e Cafaia (1975). A tetralogia, já em sua 3ª edição, recebeu diversos prêmios e teve dois de seus volumes traduzidos para o russo e publicados na antiga União Soviética em 1980, com tiragem de 100 mil exemplares. A obra foi reeditada em dois tomos pela editora Mercado Aberto, de Porto Alegre, em 1986.

 

Os Guaianãs é uma referência importante da prosa regional brasileira e narra uma heróica história de resistência, tendo como tema principal uma guerrilha rural hipotética nos sertões baianos e mineiros durante as décadas de 1960 e 70. É uma saga moderna, de cunho essencialmente épico, que mostra a fertilidade imaginativa e o vigor estilístico do autor.

 

Barreto publicou ainda Vagagem (1978), que se apresenta como um livro de “viagens e memórias sem importância”; A última barricada (1993), romance em folhetins improvisados, que reúne colunas publicadas no jornal Estado de Minas e anotações inéditas, em que ainda ressoam temas e personagens de Os Guaianãs; e Um caso de fidelidade (2000), que reflete as incertezas do mundo globalizado e pós-ideológico que se sucede à derrocada do socialismo.

 

Em 2009 e 2010, publicou Os idos de maio e Bardos e viúvas, que fazem parte da Saga do Caminho Novo. A tetralogia recebeu o prêmio “João Felício dos Santos”, concedido pela União Brasileira de Escritores, seção Rio de Janeiro (UBE-RJ), como melhor romance histórico de 2010.

 

Crédito: Laura Barreto

 

21/03/2011

Informações adicionais e agendamento de entrevistas:

Rachel Barreto (31) 8804-4105 / rachelbarreto@globo.com

 

03
abr
11

Caminho do novo

Stella Leonardos

Poeta e escritora, presidente da Academia Carioca de Letras e secretária-geral da União Brasileira de Escritores, seção Rio de Janeiro

 

 

Veio-me às mãos sua obra magistral onde imaginação, História e arte – sobretudo lucidez inspirada – se entretecem num mural de vigor e verossimilhança intrínseca. Impressionante.

 

E a coragem vitoriosa no abraçar alto assunto? Tudo em Os idos de maio e Bardos e viúvas nos guia, pulso firme, em Saga do Caminho Novo. Incrível como o autor consegue fazer viver cada personagem. E no ambiente próprio, numa língua – e linguagem – fascinantes. Atraindo. Convencendo. Cláudio Manoel, Gonzaga, Barbara Heliodora, Alvarenga, Frei Lourenço, Padre Toledo, o Montanha, Izidora, ah!… Deste jeito acabo citando os protagonistas um por um.

 

Obra de boniteza e fôlego muito. Que fôlego! Nela os diálogos pensam e personagens sonham e se movem na cauta defesa. Por um fim maior, por uma causa linda. Tiradentes. Liberdade.

 

As ilustrações? Pessoalíssimo Januário. Nasceram para os textos. Impossível imaginar outras, agora.

 

E porque conheci esse romancear histórico incomparável meu louvor fala por mim:

 

 

Como tu que houve

Benito Barreto

de Saga tamanha?

 

Quem te lê te louva.

A Saga és tu mesmo,

Benito que louvas,

a Minas antanha

caminho do novo.

03
abr
11

Epopéia ambientada na Minas inconfidente

Alberto Pinto Coelho

Vice-governador de Minas

 

 

Conheci Benito Barreto por intermédio do embaixador José Aparecido de Oliveira.

 

Se me detivesse a procurar uma expressão de admiração, de respeito, de consideração, de quase paterna amizade, – de idolatria mesmo – pelo saudoso José Aparecido, sei que me faltariam palavras, ia constatar um abismo, coisa que só o sentimento consegue manifestar e dar a verdadeira dimensão. Com tamanho afeto por José Aparecido e, sempre que possível, sorvendo de sua doce companhia, fui brindado também pelo convívio e pela extensão da amizade de diversos de seus inumeráveis companheiros.

 

Um deles era Benito Barreto. Inteligente, condição básica para ser amigo de José Aparecido, falante, articulado, capaz de agradabilíssimas e intermináveis conversas, cujo pano de fundo versava sempre sobre algum aspecto da rica natureza do comportamento humano. Desse modo, Benito Barreto entrou, em definitivo, na minha vida.

 

“Um prefácio para meu novo livro”, pediu-me Barreto.

 

Afinal, que competência vê em mim o Benito para lançar tarefa desta monta, ao “cobrar-me” tamanha prova de carinho e zelo pela amizade ?

 

Bem, como não sou homem de refugar desafios, me despi de pseudas modéstias e, com atenção e interesse, pus-me a folhear os originais deste que é o terceiro volume da Saga do Caminho Novo, que leva o título de “Toque de Silêncio em Vila Rica”.

 

Já conhecedor da capacidade literária de Benito, explícita de modo intenso nos volumes anteriores da mesma Saga, de seu texto vigoroso – contundente por vezes –, mas de uma fluidez que emociona e encanta sempre, vi-me mais uma vez, enfeitiçado pelas palavras, verdadeiros acordes de letras.

 

Tamanha consistência, clareza narrativa e capacidade de envolvimento e comprometimento são atributos raros, mesmo em autores mais famosos que Benito Barreto.

 

Mas o estilo de Benito, amizades à parte, é peculiar e intenso.

 

Dignos de especial registro,– e estou certo que os felizardos leitores da obra concordarão comigo – os diálogos foram tão bem construídos, tão bem estruturados, que conseguem nos passar aspectos sensoriais do enredo, nos remetem a aromas, transmitem ruídos, saltam os silêncios, repercutem as angústias, ficam perceptíveis os dramas e as emoções contidas em cada um dos históricos personagens, como se participássemos, os que leem, ativamente de cada cena revelada.

 

Dono de um prodigioso intelecto, Benito vai tecendo e construindo, nesta epopeia ambientada na Minas inconfidente, um cipoal, uma enorme e conclusiva teia de sentimentos e emoções que nos remetem, de imediato, tal qual maquina do tempo, ao cerne da luta e da motivação daquele homem “ensandecido de esperança” que mencionava nosso líder Tancredo Neves quando se referia, orgulhosamente, ao protomártir da Inconfidência, o herói Tiradentes.

 

Leitura motivadora, da qual o leitor não se afastará sem grande incômodo ou lamento, “Toque de silêncio em Vila Rica” é daqueles livros marcantes, capazes de nos conduzir para outros títulos anteriores deste amigo autor e, também, para leituras adjacentes ao tema, no agradável afã de nos nutrirmos mais da mesma e saborosa temática.

 

Enfim, diante da difícil missão de apresentar a quem o mundo das letras trata com tanta intimidade, atesto, de maneira vibrante, o elevado prazer que nos propõe este notável “Toque de silêncio”. Visto de modo peculiar e inquietante pelo autor, que chega ao ápice de sua portentosa carreira literária, este novo livro de Benito Barreto nos confirma, de modo insofismável, a enorme satisfação que nos proporciona uma boa leitura.

 

18
fev
11

BENITO BARRETO E A HISTÓRIA CLANDESTINA DA INCONFIDÊNCIA

Deonísio da Silva

Benito Barreto é uma das referências solares da literatura no Brasil. Infelizmente ainda não é devidamente lido, conhecido, apreciado, reconhecido. Quem perde com isso? Todos! E quem ganha com isso? Aqueles que falam mal do Brasil e endeusam nulidades, como se fossem o que de melhor temos, quando, na verdade, são aqueles que, por motivos extraliterário, têm mais acesso à mídia nesses tempos em que ela quer ditar, hegemônica, o que devemos ver, ler, pensar, sentir etc.

Assim, seus operadores querem fazer crer que bom mesmo é o que nos apregoam. E estão também atentos às traduções, às vezes tardias, e aos aeroportos internacionais, mas não passam pelos nacionais, a não ser para sair do País, pelas estações ferroviárias, rodoviárias e sobretudo não percebem as estações do Velho Oeste onde respira o Brasil profundo.

Uma dessas estações é Minas Gerais. Chegando ali, o viajante-leitor dá de cara com outras travessias e novas veredas, muitas das quais se tornaram célebres na prosa de João Guimarães Rosa, uma vez que vieram de lá alguns dos maiores escritores brasileiros do século XX. Vieram de outras plagas também: do Brasil meridional, do Nordeste, do Centro-Oeste, do Norte e, naturalmente, do Sudeste.

Mas, se em todos os lugares se produz boa literatura, poucos conseguem vencer o cerco Rio-São Paulo. Esta questão, aliás, é tão antiga quanto os esforços para romper esse círculo de ferro, infelizmente afetando outras esferas também, como a política, a artística, a cultural enfim. Como já disse num ensaio que escrevi para uma revista alemã quando o Brasil foi tema da famosa Feira de Frankfurt, na década de 90, a mortalidade infantil, ainda alta entre nós, afeta duramente também as nossas letras.

Estes parágrafos sirvam de pano de fundo para a emergência de mais uma série de romances de Benito Barreto. As primeiras narrativas foram reunidas nesse verdadeiro monumento, erguido com muito talento em nossa paisagem literária, que é Os Guaianãs. E agora volta com Saga do Caminho Novo, de que essa mesma editora já lançou Os idos de maio (2009) e Bardos e Viúvas (2010), os dois com textos introdutórios muito pertinentes e esclarecedores, da autoria de Ângelo Oswaldo de Araújo Santos, João Amílcar Salgado, Márcio Jardim, do romancista Luís Giffoni e do professor José Hildebrando Dacanal, cuja voz mais se fez ouvir sobre a obra desse mestre de nossas letras.

Benito Barreto, nesta segunda série, reconta a Inconfidência Mineira, o primeiro projeto de Independência do Brasil! Sufocado ali, com a morte de Tiradentes, com o “suicídio” do poeta Cláudio Manoel da Costa no cárcere de Maria I, a Rainha Louca, com o desterro do igualmente poeta Tomás Antônio Gonzaga, na África – aliás, foi de padres, letrados e escritores os primeiros projetos de romper com Portugal -, tornou-se vitorioso algumas décadas depois, conduzido justamente por Dom Pedro I, neto de Maria I! Bem Brasil! A avó manda enforcar, esquartejar, salgar e afixar os restos mortais do alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes,  em postes públicos à beira dos caminhos, coerente com certas liturgias macabras do poder. E o neto da opressora torna-se o libertador e lidera o processo que faz da vítima o herói de nossa gente!

O rei Dom João VI, filho da rainha louca e pai do esclarecido príncipe, viu antes o que um romancista italiano expressaria em obra de rara beleza e significação no século seguinte. Sendo inevitável a ruptura, que venham os acordos porque, como diz o príncipe moderno para o tio conservador, no romance O leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, é preciso trair e apoiar outros, pois, “para que tudo permaneça como está, é preciso que tudo mude”. Sábio Lampedusa! Mas será que, não fosse Luchino Visconti filmar seu romance, ele teria ganhado o mundo como ganhou? Palavra e imagem se uniram para que a obra atingisse o esplendor do que então expressava. Não tenho dúvidas de que isso ainda vai acontecer com a obra de Benito Barreto. Talvez bem antes do que imaginamos, ela será levada ao cinema e à televisão.

Que animal pode substituir como símbolo o leopardo no brasão da Casa de Bragança? No romance de Lampedusa, o bicho diz duas coisas de cara: o leopardo foi extinto na Itália pela sanha predatória dos caçadores e só permaneceu no brasão daquela família da nobreza siciliana, prestes a ser exterminada também com a República!

Todos os grandes escritores têm algo em comum em sua magnitude, não importam a nacionalidade, o que expressam, quando e onde expressam. Um rosto irado não é latino nem grego, ensinou-nos Santo Agostinho.

Neste Toque de silêncio em Vila Rica Rica, logo às primeiras páginas, depois de insólitas peripécias de Tiradentes, conduzindo preso alguém que lhe salvou a vida em tempos antigos, o colóquio de Bárbara (Heliodora) e Marília (a de Dirceu) sobre as “dívidas da poesia com o  pincel e o cinzel e outras dívidas”, travado na presença de mestre Athayde, que estranha uma mulher tão jovem ter “dívida antiga” com Aleijadinho,  serve de epígrafe ao estilo, ao modo de narrar de Benito Barreto:

“- …e muitas vezes aonde eu acho arrimo, a força e a alegria para continuar com a vida, é na viveza de sua pintura que eu acho. Isso já por muito mais duma vez, mestre Athayde…

Bárbara se junta a Marília:

- Ela tem razão, o azul e o vermelho, no que pintas, iguais eu nunca, antes, os vi, nunca. E fico a me perguntar como é que arranjas tuas tintas. Se as faz, se as compra, e de onde? O Alvarenga certa vez me disse que a própria natureza não as tem, nem faz iguais, já prontas; segundo ele, a escolha e a produção da tinta são metade ou mais do gênio e do engenho do pintor…”

Talvez para Benito Barreto valha também o ditado árabe que diz que o vento apaga as velas, mas reacende as brasas. Ele fez soprar sobre a Inconfidência um vento novo. O vendaval engendrado por este, mais que gênio, oxigênio de nossas letras, fez reaparecer muitas coisas e personagens escondidos sob as cinzas da Inconfidência, recriando-os com sua poderosa imaginação, todavia sempre apoiada na História, pois seu objetivo é o romance histórico. E, assim procedendo, em vez da história oficial ou ideológica apenas, temos a história clandestina daquele processo que fundou o Brasil como nação e do qual emergiram tantos personagens emblemáticos e memoráveis!

Mas Benito não se atém apenas ao antes e ao durante da Inconfidência. Ocupa-se também do contexto sobrevivente, alterado pela Devassa ordenada por Maria I e cumprida fielmente pelos eficientes aparelhos de Estado. Ainda assim, como se sabe, a Inconfidência prosseguiu por outros caminhos, encubando a independência pretendida, que foi apenas prorrogada.

A esse respeito o narrador esclarece as coisas, ao contar o encontro de Bárbara – as personagens femininas tomam conta desse romance -com um revolucionário disfarçado de professor de latim, conquanto ainda muito desconfiada e precavida:

“E, no entanto, o que daria ele e faria por convencê-la! E ela o quê, e quanto, por sabê-lo, de fato, um dos seus nele, pois, poder se confiar? Pô-los em contato – a ela e aos garimpeiros em armas nos Gerais – seria fazer-se, por primeira vez, nas Minas, senão, mesmo, no Brasil, a aproximação e a ligação do povo com as chamadas elites, seus principais, para a luta pela independência; será, talvez, salvar-se a Inconfidência…”.

Entre as cenas mais dramáticas, pungentes e fantasmagóricas deste romance, está o enterro do poeta e inconfidente Cláudio Manoel da Costa, cujo cadáver, no dia seguinte à sua morte, é praticamente arrebatado do poder para ganhar enterro digno quando eram “oito horas da noite hibernal do dia 05 de julho de 1789”.

Apenas nove dias depois do funeral do poeta, a população de Paris tomava a fortaleza da Bastilha, deflagrando a Revolução Francesa, no célebre 14 de julho. Alguns anos antes, a 4 de julho de 1776, exatos treze anos depois da morte do poeta e inconfidente, a burguesia colonial tinha proclamado a independência dos Estados Unidos.

Os três projetos eram muito semelhantes, mas o da Inconfidência foi derrotado, conquanto vitorioso como exemplo de revolta que dali por diante deveria preencher certas lacunas. E a independência do Brasil ficou para mais tarde.

Os maiores ensinamentos vêm de derrotas, não de vitórias. Essas também ensinam, evidentemente, mas com as primeiras aprendemos que para vencer é preciso mais do que orgulho e vontade. São indispensáveis ações concretas, não de poucos, mas de poucos que consigam articular muitos, pois no processo histórico não há vitórias para exércitos de um homem só. Seja um escritor genial ou um militar sabedor de grandes estratégias, é necessário que, pelo menos, como disse Brecht, César leve um cozinheiro consigo para conquistar a Gália. Isto é, que o povo esteja presente nas lutas ou as apoie. (xx)

 

 

18
fev
11

Sinais, sinos e sina dos Inconfidentes

Ângelo Oswaldo de Araújo Santos

Escritor e Prefeito de Ouro Preto

O escritor Benito Barreto alcança o terceiro movimento da grande sinfonia em que envolve a Inconfidência Mineira, transformado no maestro que conduz os andamentos ora a tons sombrios e sinistros, ora a serenas e breves fugas ou alegros logo rompidos pelo dobre severo de lúgubres sinos. Ele se entregou ao tema, apaixonadamente, e do primeiro livro não tardou a passar ao segundo, concluindo, sem demora, o presente tomo, já a caminho do quarto romance. O extenso painel levantado pelo ágil ficcionista projeta a saga da conspiração que se enredou na constelação dos arraiais e no cipoal das estradas da Capitania das Minas e em sua capital, no ocaso do século do ouro.

Matéria de notáveis contribuições à poesia, à literatura, ao teatro e ao cinema do Brasil, bem como às artes plásticas – de Pedro Américo a Portinari e João Câmara, a Inconfidência de 1789 recebe de Barreto uma abordagem surpreendente. Revela-se, de modo fascinante, nas páginas que se multiplicam neste quarteto da Vila Rica insurgente. Os lances que despertam os mineiros para o sonho da liberdade, os embates do cotidiano no labirinto das montanhas, a trama sutil da rebelião e a resposta implacável da Coroa, as personagens centrais da tragédia, os bardos e suas viúvas, os senhores de mina e os lacaios, os letrados e seus pérfidos francesismos, tudo e todos se fazem ouvir, em meio ao silêncio pétreo no qual os mergulha o surdo rancor da metrópole.

Do Fanado das Minas Novas às campinas da Campanha do Sapucaí, das capistranas do Tijuco ao porto real do Rio das Mortes, de Norte a Sul, estremece a alma sobressaltada dos mineiros, sob o peso das armas lusitanas.

Ecoam pela formosa casa dos contratos reais e residência de João Rodrigues de Macedo as árias mais terríveis do concerto. Edifício nobre e elegante, em que se imprimem as marcas do galante rococó, no princípio da rua São José, onde pouco adiante tem moradia o “feio e espantado” alferes Tiradentes, a Casa dos Contos é baluarte e prisão, observatório e palco de encenações insuspeitadas, refúgio e patíbulo.

O doutor Cláudio Manuel da Costa vai ser encontrado sem vida, no cômodo da escada. Perguntar-se-á se foi suicídio ou assassinato, enquanto todos fingem de morto nas alcovas do assombrado mundominas. O contratador Macedo, sorvendo goles de quinado, vaga pela noite abissal que invade o seu palácio, na contramão da história perdida.

Prisão dentro da prisão em que se tornou Ouro Preto por inteiro, cárcere dentro do cárcere que é Minas, no desterro chamado Brasil, nada escapa ao toque de recolher. Os denunciados pelos alcaguetes do Visconde de Barbacena contaminam todos os moradores com o estigma do crime de lesa majestade, e a capitania se vê em estado de sítio.

O corpo do poeta atravessará a cidade fantasma enquanto um uivo haverá de traduzir o estremecimento de seu povo, num alucinante toque de silêncio no imenso calabouço.

O título da obra refere exatamente esse clímax, na sucessão de momentos que comovem e enternecem, tanto quanto perturbam e instigam o leitor, agora plenamente familiarizado com a legião de personagens que transitam pelos romances de Benito Barreto. São gente de verdade, habitantes da sede da desmaiada província, pessoas que acorrem ao brado dos bardos e acolhem suas viúvas, povo silenciado pelo toque da espada dos dragões, trazendo porém na garganta o eco das palavras espalhadas ao vento pelo rebelado Tiradentes. Com o prazer desta leitura, aguardemos o romance conclusivo da saga.




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