Ano: 1975
Editora: Interlivros
Capa: Ziraldo
Ilustrações: Amilcar de Castro
Livro traduzido para o russo
Com este Cafaia Benito Barreto completa a saga dos seus Guaianãs, um povo de mineiros e nordestinos em cuja vida ressoa, no entanto, toda a problemática existencial do homem brasileiro e do homem de qualquer parte deste nosso conturbado fim de século. Um fim de século que é, também, o apagar das luzes do segundo milênio da civilização ocidental e, mais que isso, o momento crucial da guerra de todos os tempos entre o homem e o meio, entre o indivíduo e a massa e entre o ser e a máquina.
Se, como o admitem os céticos e os poetas do desespero, o próprio Criador já há muito tempo desistiu de afinar a orquestra caótica do mundo que concebeu, dá-nos isso uma pauta para projetarmos e medirmos a nossa perplexidade em face das engrenagens que, por nossa vez, criamos e nos impusemos.
Estão aí dois mil anos de civilização cristã e de pedagogia catequética, dois mil anos de cultura e de massificação, de acumulação de meios e de esforços tecnológicos, de.racionalizações, enfim, mas o homem, conquanto a afogar-se e a sangrar sob as armações metálicas do mundo, teima em sobreviver como indivíduo. Gera, ele próprio, os mecanismos da escravidão mas quer ser livre; edifica sistemas colossais e, contudo, se arrepia quando vê que o reduziram a uma ficha. Menos poderoso que os seus deuses, é, todavia, muito mais presunçoso e audaz que qualquer deles e, por isso, ei-lo que, como o feiticeiro da lenda ou o físico da bomba, desencadeou elementos e energias que já não sabe ou não pode controlar.
Não sabe ou não pode mas QUER. E teima. E luta E morre. E aí sua grandeza.
Neste Cafaia de Benito Barreto como, de resto, em toda a sua obra, o que sobretudo vê-se é a silhueta musculosa deste homem de, todos os tempos, encontradiço em qualquer lugar, que jamais se rende e que de vez em quando emerge na sua nudez primitiva como para apenas reafirmar que não morreu. E mais para dizer-nos, ou relembrar-nos, de que mesmo quando não possa ganhar contra a guerra contra o sistema, deve o homem aceitar, ainda assim, o desafio das batalhas, o que vem a ser uma versão atualizada da velha canção de amigo do rei trovador: navegar é preciso, viver não é preciso…
Laura Barreto, estudante

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