Arquivo para a categoria 'Histórias'

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mai
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Benito 80 anos

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Este é um espaço que reservamos, em condições normais, para a apresentação e discussão de questões centradas na economia e na construção, nos temas do Brasil e do mundo. Opiniões, enfim, a respeito dos fatos de que trata a imprensa como um todo.

Isto, volto a lembrar, em condições normais.

Que não são as atuais.

Pois que neste abril de 2009, mais precisamente no dia 17, Benito Barreto, meu pai e criador desta revista, chegou aos 80 anos.

Motivo mais que justo para falar um pouco dos caminhos que fez nesta vida.

Que passaram, é certo, por criar este nosso Informador, no distante ano de 1956. Quando um jornalista feito na prática da redação teve a idéia de indicar, a todos que trabalhavam com a construção civil, onde estavam as obras da cidade, as já iniciadas ou ainda planejadas, para que assim  corressem melhor os negócios de todos.

Que enveredaram, pouco depois, pela literatura, no também distante 1962, quando lançou seu primeiro romance, Plataforma Vazia, premiado, naquele ano, com o prêmio da Cidade de Belo Horizonte.

Seguindo estes passos de empreendedor e escritor, em meio à instalação e à consolidação da ditadura, faz crescer a empresa e frutificar a literatura. São dos anos 60 e 70 os volumes que completam a tetralogia Os Guaianãs, assim como é desta época a criação da Editora Casa de Minas, completando a montagem da revista.

Em meio a tudo, a militância política, de homem de esquerda que sempre foi, denunciando os desmandos da ditadura, a ela se opondo, ajudando, como muitos, a preparar a sua queda. Usando dos instrumentos possíveis, da fala à literatura, sem se omitir. Correndo riscos.

Em outra vertente, nesta casa, buscando o novo. Dentre tantas iniciativas, destacamos os suplementos Vão Livre, voltado ao melhor da prática da Arquitetura, e Capixaba, levando ao Espírito santo a mesma qualidade de trabalho que Minas já conhecia.

E assim se passam os anos.

Ao lado, pelo Brasil e pelo mundo, muitas mudanças. Umas, como a democratização do Brasil, lhe soam como vitória. Outras, como a globalização, o mundo plugado, a queda do comunismo, lhe trazem uma sensação de estranheza, de um virar as coisas pelo avesso.

Neste século XXI, temos o nosso Benito que chega aos 80. Firme em tudo. No dia a dia do Informador, na literatura, no inconformismo com os poderosos de sempre.

Para comemorar estes 80 anos, um livro novo, o primeiro de uma trilogia histórica, a “Saga do caminho novo”, ambientada em minas, à época da Conjuração Mineira, tendo seus atores como personagens, lhes dando vida e falas.

Com este livro, “Os idos de maio”, comemoramos os 80 anos e recebemos de presente, do aniversariante, uma obra preciosa.

Parabéns, meu pai!

Vinício de Faria Barreto

Texto escrito para o editorial de abril de 2009 da revista Informador das Construções, criada por Benito Barreto.

23
abr
09

Escritor fala sobre seu último romance, que recria a Inconfidência Mineira

Nesta entrevista, o autor fala sobre a relevância da Inconfidência nos dias de hoje, a narrativa desenvolvida na trilogia e a relação desta primeira incursão no romance histórico com suas obras anteriores.

Por que o tema da Inconfidência despertou seu interesse?

Sempre achei que nós, os ficcionistas, estamos em dívida com a Inconfidência. Me parece que não existe uma obra que retrate o contexto histórico e social da Inconfidência em toda a sua pluralidade. A visão que a gente tem é, ainda, sobretudo escolar. O que estou tentando fazer é um trabalho mais abrangente, em termos de ficção, de recriação da Inconfidência no seu todo.

Acredito que não há outro movimento com a envergadura e o alcance da Inconfidência Mineira. É através dela que Minas faz o que eu chamo de invenção do Brasil. A concepção da nação Brasil se origina no pensamento dos inconfidentes, como diz a famosa frase de Tiradentes: “se todos nos unirmos, podemos fazer desse país uma grande nação”.

Como foi o processo de pesquisa e produção do livro?

Esta pesquisa está com mais de 10 anos. Fiz algumas viagens aqui em Minas e li dezenas de livros, notadamente, os famosos Autos da Devassa, além de muitas outras obras, a favor e contra a Inconfidência. Li, inclusive, trabalhos de inimigos mortais da Inconfidência, da corrente de historiadores e intelectuais que contesta a própria existência da Inconfidência Mineira.

Qual o foco da história da Saga do Caminho Novo?

Este volume mostra, sobretudo, o trágico momento da queda dos conspiradores. A história começa no Rio de Janeiro, seguindo o padre que entregou Tiradentes ao vice-rei depois de ser ameaçado. Pela sua culpa, ele sai desembestado para Minas, para tentar salvar os conspiradores. Os idos de maio acompanha os passos desse homem, que é um personagem real e, no livro, um trabalhador clandestino tentando salvar a revolução.

Depois que Tiradentes é preso no Rio, a repressão se deflagra de forma violenta, brusca e impiedosa. Todos são apanhados de noite, postos a ferros, gargalheira, algemas e arrastados para a prisão.

E começa aquilo que, no segundo volume, vai ser o reinado do terror. Aí estarão presos e virão os interrogatórios. No terceiro, que eu chamo de Um pároco na corte, ou despojos, a maioria está nas masmorras do Rio de Janeiro, na Ilha das Cobras, com Tiradentes. E está correndo o processo que vai culminar no degredo para todos, com exceção de Tiradentes, que é enforcado e esquartejado.

Qual a importância da luta dos inconfidentes para o nosso contexto atual?

Ela nos fortalece como cidadãos, mostrando que, nas nossas raízes, homens simples já sonhavam com a independência, com a soberania nacional, que é um patrimônio inestimável. Muitos deles se acovardaram, mas isso não anula sua mensagem. Houve momento em que tiveram consciência da iniqüidade daquele domínio e da necessidade da independência, da liberdade.

Nesses tempos de abuso, de aviltamento da soberania dos povos, a mensagem é essa: nós temos de continuar o sonho de Tiradentes, fazer prevalecer a nossa soberania e desenvolvê-la ao máximo, dar a ela o máximo de sustentação.

Como este livro se relaciona com as temáticas tratadas em suas obras anteriores?

Toda minha literatura é comprometida com o sonho e os pesadelos dos ideais revolucionários. Eu fiz a tetralogia Os Guaianãs, que publiquei até 1975, dentro dessa perspectiva de revolução. Em 1976, fui à União Soviética e vi com meus olhos as fendas no sistema, as manifestações de fragilidade, de distanciamento dos postulados iniciais da vida socialista, de relaxamento por parte dos governantes e do Partido Comunista.

Fiz então um livro com mais de mil páginas, com a idéia de uma revolução que começaria no Brasil e, no seu processo, salvaria o socialismo e acabaria com o capitalismo no vórtice de uma 3ª Guerra Mundial. Era minha incursão na futurologia. Por que a futurologia? Porque o presente não prestava.

Mas, quando terminei de escrevê-lo, o que se esfacelou foi justamente a União Soviética… Então perdi tudo aquilo e fiquei assim, sem presente nem futuro… o que me remeteu ao passado, à Inconfidência Mineira.




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