Ângelo Oswaldo de Araújo Santos
Escritor e Prefeito de Ouro Preto
O escritor Benito Barreto alcança o terceiro movimento da grande sinfonia em que envolve a Inconfidência Mineira, transformado no maestro que conduz os andamentos ora a tons sombrios e sinistros, ora a serenas e breves fugas ou alegros logo rompidos pelo dobre severo de lúgubres sinos. Ele se entregou ao tema, apaixonadamente, e do primeiro livro não tardou a passar ao segundo, concluindo, sem demora, o presente tomo, já a caminho do quarto romance. O extenso painel levantado pelo ágil ficcionista projeta a saga da conspiração que se enredou na constelação dos arraiais e no cipoal das estradas da Capitania das Minas e em sua capital, no ocaso do século do ouro.
Matéria de notáveis contribuições à poesia, à literatura, ao teatro e ao cinema do Brasil, bem como às artes plásticas – de Pedro Américo a Portinari e João Câmara, a Inconfidência de 1789 recebe de Barreto uma abordagem surpreendente. Revela-se, de modo fascinante, nas páginas que se multiplicam neste quarteto da Vila Rica insurgente. Os lances que despertam os mineiros para o sonho da liberdade, os embates do cotidiano no labirinto das montanhas, a trama sutil da rebelião e a resposta implacável da Coroa, as personagens centrais da tragédia, os bardos e suas viúvas, os senhores de mina e os lacaios, os letrados e seus pérfidos francesismos, tudo e todos se fazem ouvir, em meio ao silêncio pétreo no qual os mergulha o surdo rancor da metrópole.
Do Fanado das Minas Novas às campinas da Campanha do Sapucaí, das capistranas do Tijuco ao porto real do Rio das Mortes, de Norte a Sul, estremece a alma sobressaltada dos mineiros, sob o peso das armas lusitanas.
Ecoam pela formosa casa dos contratos reais e residência de João Rodrigues de Macedo as árias mais terríveis do concerto. Edifício nobre e elegante, em que se imprimem as marcas do galante rococó, no princípio da rua São José, onde pouco adiante tem moradia o “feio e espantado” alferes Tiradentes, a Casa dos Contos é baluarte e prisão, observatório e palco de encenações insuspeitadas, refúgio e patíbulo.
O doutor Cláudio Manuel da Costa vai ser encontrado sem vida, no cômodo da escada. Perguntar-se-á se foi suicídio ou assassinato, enquanto todos fingem de morto nas alcovas do assombrado mundominas. O contratador Macedo, sorvendo goles de quinado, vaga pela noite abissal que invade o seu palácio, na contramão da história perdida.
Prisão dentro da prisão em que se tornou Ouro Preto por inteiro, cárcere dentro do cárcere que é Minas, no desterro chamado Brasil, nada escapa ao toque de recolher. Os denunciados pelos alcaguetes do Visconde de Barbacena contaminam todos os moradores com o estigma do crime de lesa majestade, e a capitania se vê em estado de sítio.
O corpo do poeta atravessará a cidade fantasma enquanto um uivo haverá de traduzir o estremecimento de seu povo, num alucinante toque de silêncio no imenso calabouço.
O título da obra refere exatamente esse clímax, na sucessão de momentos que comovem e enternecem, tanto quanto perturbam e instigam o leitor, agora plenamente familiarizado com a legião de personagens que transitam pelos romances de Benito Barreto. São gente de verdade, habitantes da sede da desmaiada província, pessoas que acorrem ao brado dos bardos e acolhem suas viúvas, povo silenciado pelo toque da espada dos dragões, trazendo porém na garganta o eco das palavras espalhadas ao vento pelo rebelado Tiradentes. Com o prazer desta leitura, aguardemos o romance conclusivo da saga.






