Posts Categorizados ‘A última barricada

16
abr
09

A Última Barricada

Ano: 1993
Editora: Casa de Minas
Capa: Amílcar de Castro

A ÚLTIMA BARRICADA é livro em cujas páginas convivem a coluna de jornal, a crônica, o conto e o romance. Compõe-se de colaborações do autor no “Estado de Minas”, no período de 03/12/89 a 07/08/91, trabalhos que enfeixa e reproduz, cronologicamente, até o momento em que tais publicações são interrompidas e chega-se à sua segunda parte, na qual, por isso mesmo, o livro se completa sob a rubrica de Anotações Inéditas.

No canto de página em que o autor vai pondo, semana após semana, as suas impressões do dia-a-dia da vida e do mundo, do país, das coisas, o leitor logo perceberá que assunto e personagens tendem a enredar-se. Que um fio se insinua, que se não vê mas sente-se, Iigando-os e, progressivamente, fazendo a trama.

Certo propósito, seria ? algum não revelado objetivo ou mal disfarçado enredo ? o quê?

Não exatamente isso mas é sempre certo que às vezes sutil e apenas adivinhável, outras visível e presente, mais marcante, tal como numa composição sinfônica, essa coisa emerge e reaparece, isso que os interliga e anima.

Reaparece e pontua, não raro fortemente.

Seria, retomando-se a analogia com a música, o tema, seu tema, que se pode resumir na inconformidade do personagem principal e narrador, um jornalista – Mário Bartholomeu Brina, o Barthô – com o esmorecimento e consequente falência da Revolução em todo o mundo, com a caducidade e morte do Socialismo.

Desastre que ele, o Barthô, não aceita, com o qual não se conforma e dai que sai à procura dos motivos, duma explicação aceitável, que evidentemente não acha, o que, porém, não o resguarda da prisão – posto que a sua busca incomoda, mexe no que não deve – numa cadeia de arraial, sui generis, cujo zelador será seu guarda e na qual as grades tradicionais foram substituídas por cães de fila que todo o tempo a circundam e circulam, ” velando ” pelo preso.

Já então as crônicas iniciais e os contos cederam lugar aos folhetins semanais de um romance cuja urdidura se vai fazendo com a matéria prima das evocações e do dia-a-dia do personagem / narrador, na prisão.

Onde, aliás, ele acabará por encontrar muito do que lá fora procurava, notadamente – embora isso possa à primeira vista parecer absurdo e até impossível – aliados: em verdade todo um forte e aguerrido Batalhão em apoio à sua causa.

E outras coisas descobre e assume no Arraial da Pedra lá esquecido no sopé da Serra do Espinhaço, naquele mesmo país de Capela dos Homens em cujas cercanias de serras e sertões os Guaianãs viveram· o sonho, a vida e as mortes da Revolução, coisas como o fim que veio a ter seu Comandante; a notícia espantosa de homens desaparecidos, nos idos da guerra, e depois achados em pedaços a escorrer das árvores e das pedras, nos penhascos; páginas de dor e heroísmo, o amor e o ódio, naqueles dias; a sentença, por exemplo, com que o Cafaia justiçou o último dos Sapucaia e de como, a despeito dela, viria este a renovar sua famigerada prole e quando e por que meios pôde a Nair das Aves, tão frágil e menina, dar à luz um Batalhão; por último, porém, não menos importante – o Diário Secreto de Padre Donato, que lhe mandaria de Roma o adido Santanery.

Mário Bartholomeu Brina, o Barthô, deixa-se envolver com essas evocações e descobertas, com os supostos sentimentos e significações que acha nelas e que ele quer por força resgatar, valores, aliás, que só ele vê e nos quais se encastela, indiferente às reações que provoca, até um dia descobrir, – já então sem tempo nem meios para deter e reverter o processo – que a sua prisão transformou-se numa absurda barricada onde, grotesco e só, quase só, ele resiste ainda em nome não sabe do quê, nem por quê, enquanto o cercam e dia após dia mais apertam o cerco inexorável, poderosos inimigos e numerosa multidão.

Tem, ainda, esta Editora a esclarecer, por dever de oficio e de obrigações contratuais, que a “A ÚLTIMA BARRICADA” é livro de edição doméstica; para o autor são registros e anotações testemunhais, pouco mais que isso e a sua semelhança com a literatura seria mesmo só e apenas semelhança e alguma coincidência, razão, de resto, porque não será levado à mídia nem ao público.

O pressuposto é que o tema e os personagens sendo pertinentes a um tempo já passado e figurando tudo o mais que versa o livro no rol das coisas e pessoas mortas, por conseguinte de interesse apenas para os parentes e amigos que compareceram ao enterro e choraram seu passamento, soa despiciendo incomodar com pranto e luto a quem, – mídia e público – não mostra maior interesse pelo assunto, o morto nem o espólio.




Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.