A Saga do Caminho Novo compõe-se da trilogia em que o romancista Benito Barreto dá vida à Conjuração Mineira de 1789. Conhecido a partir de controvertidas interpretações apuradas pelas circunstâncias históricas, ao fim da colônia e ao longo do império e da república, o episódio sempre atraiu o interesse de ficcionistas e poetas. Agora, rende-se ao enredo surpreendente e fascinante que lhe atribui o engenho de Barreto, debruçado sobre o teatro dos acontecimentos como espectador pronto para entrar em cena.
O primeiro volume, Os idos de maio, compreende o trecho crítico no qual se desfaz a conspiração, na rede de delações e prisões que se estende pelo Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais, como o chamou Pedro Nava. Narrada a queda, hão-de vir, em seguida, os volumes dedicados ao terror e aos despojos. O terceiro e último se passa no Rio de Janeiro, onde começa a narrativa do presente tomo, local do desfecho trágico da epopéia do “animoso alferes” evocado por Cecília Meireles.
Benito Barreto galopa pela Estada Real, e o real, para ele, são os dias de diluição do sonho mineiro dos conjurados de 1789, os idos de maio do ano terrível. Insurge o autor em meio à trama, acompanha as personagens nas suas tribulações, vê a conspiração arruinar-se, enfrenta o terremoto que se seguir à denúncia.
Presente, de fato, nos caminhos de Minas, ele se desloca agilmente, à procura de luz na escuridão silenciosa do interdito. Parte da ilha do Governador, onde se urde crucial envolvimento, rumo ao porto da Estela, para subir a serra, pousar nas estalagens, escutar os rumores, penetrar nos labirintos da surda revolta.
Encontra personalidade que se esconderam nos interstícios da notícia histórica, desvela a participação que tiveram no curso trepidante daqueles momentos de angústia e aflição, anota-lhes as razões, recompõe os itinerários da gente ensandecida pela opressão e arrastada pelo delírio da liberdade.
Um grande romance nasce dessa devassa assombrosa. Quem imaginaria o irmão Lourenço, o misterioso eremita do Caraça, envolvido nos capítulos mais intrincados da rebelião nascente? E mestre Lisboa, o escultor genial, buscando, com seus ferros de entalhar, destruir os grilhões da colônia?
Toda aquela gente fala. São as vozes de Minas. O autor oferece aos leitores a audição perfeita do velado parlatório em que se transformou a capitania rebelada. As personagens se movem nas palavras, cuja, “estranha potência”, como diz o Romanceiro ceciliano, sustenta a dimensão fabulosa que o movimento alcança na ficção de Benito Barreto.
O escrito José Castello, certa vez, recorreu ao desabafo de uma amiga para concluir que as palavras “servem só para nos distrair da incerteza”. Ao navegar nesse mar de palavras em que se afundam os protagonistas da tormenta, Barreto transformar o enigma do verbo inconfidente numa sonora certeza: tudo isso foi o que eles na verdade disseram.
“Essas vidas, em que se enraízam as nossas e a nossa formação como povo, a que se deram, em sacrifício, muito significam para mim”, contou-me o romancista, em emocionada confidência, ao explicitar os motivos que o levaram à Saga do Caminho Novo.
Longos anos ele dedicou ao trabalho, trazendo para suas páginas os inconfidentes de alma e osso. E sua viva voz. A primeira parte anuncia a grandiosidade do conjunto. Benito Barreto torna a Inconfidência Mineira uma história de nossa gente e nos enche de prazer com a leitura dessa memória encantada.
Ângelo Oswaldo de Araújo Santos
Escritor e prefeito de Ouro Preto