Posts Categorizados ‘Dulce Maria de Aguiar e Souza

16
abr
09

Vagagem

Ano: 1978
Editora: Casa de Minas
Capa: Dulce Maria de Aguiar e Souza

VAGAGEM é um registro de viagens e memórias, que recolhe, às vezes sob color de ficção, andanças e impressões da vida do autor, ocasionalmente o vago vulto de pessoas e das coisas que o marcaram. Há, nas suas páginas, um pouco daquele sentimento do mundo a que não se pode furtar quem vive neste chão e participa dos dramas e das dúvidas, da esperança e da morte de seu tempo.

Dir-se-ia que aqui o romancista é personagem de si mesmo: o que nos conta, através duma sucessão de estórias é, com efeito, a aventura de sua própria vida, uma caminhada que começa a bordo de um balaio, na mais remota infância em sua Dores de Guanhães, e que o leva até Moscou e Leningrado, onde acaba por descobrir que perdeu (ou esqueceu, talvez) o endereço de seus próprios deuses.

Todavia, o autor não faz aqui, e certamente não o pretendeu fazer, sua autobiografia. Mais provável seria dizer-se que, sem o querer, nos deixa a adivinhar, nestas páginas, a biografia dos entusiasmos e dos sonhos que animaram o menino, da esperança e das paixões que, jovem, o fizeram andar e, finalmente, da dúvida atroz, do ceticismo triste que marcam, hoje, o homem , este afinal com os bolsos cheios de poeira e de cansaço, buscando entre as ruínas do tempo o que ainda fumega dos seus sonhos e ideais de outrora.

Uma reportagem da derrota? seria? Ou, quem sabe, o melancólico balanço de quem por esta via obscura acabou perdendo o rumo? – Nada disso, ou antes, não é bem isso: o autor veio com seu espelho à mão, como o diria Stendhal, veio vindo por seus caminhos, recolhendo imagens à esquerda e à direita, vez por outra olhando-se, ele próprio, ou apeando de seu cavalo, deixando o carro para misturar-se, aderir à paisagem e assumi-la. E nessas ocasiões ou paradas, viveu situações, conheceu pessoas, sofreu e amou – foi isso. É, pois, seu mundo, mas nesse pequeno mundo movendo-se uns outros, como certo povo anterior à bicicleta e ao rádio; uns bandeirantes de macacão que foram com os caminhões ao encontro das tropas nos grotões de Minas; aquela menina Sebastiana e essa que foi guerrilheira do amor, a lúbrica Antônia nas águas do São Francisco; em Moscou o antigo Cavaleiro da Esperança chorando os mortos do Partido e aqueles homens-deuses cheirando o pão, de Leningrado; um porco de calça e blusa jeans babando sobre Varsóvia; a mulher que, sozinha, lutava contra o capitalismo furtando os magazines de Paris, e em Praga o velho gari que de seu só tinha um gorro e o coração já démodé, dos verdadeiros antigos comunistas .

. . . enfim, o homem a andar por seus caminhos, juntando a vida, apanhando imagens, que de resto ele mesmo parece nem saber, ao certo, o que dizem ou significam. Pelo menos não no-lo diz, pois que de tudo o que põe claro e aqui nos deixa é que não se busque nestas páginas nem se queira desta vida uma significação maior, qualquer verdade. E que se lembre o leitor quando e se, por ventura, achar feio, irrelevante ou cru tudo o que pôde o espelho recolher destas viagens, que ele, o autor – quem o trazia – é homem viciado em ver com as mãos e, pois, por isso, o que mais vê não é a fluidez do belo nem a sempre discutível perspectiva dos planos metafísicos, mas, ao contrário, o que cheira a chão e tem corpo e realidade; o que se move e pode-se pegar; o que anda; o que sofre e sangra; o que ama e morre.

O editor




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