O escritor foi entrevistado pelo programa Rede Mídia e a entrevista foi ao ar no dia 20/04. É possível conferir novamente o programa na reprise do dia 26/4, às 20 horas, no canal Rede Minas. Um trecho da entrevista pode ser visto abaixo.
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Nesta entrevista, o autor fala sobre a relevância da Inconfidência nos dias de hoje, a narrativa desenvolvida na trilogia e a relação desta primeira incursão no romance histórico com suas obras anteriores.
Por que o tema da Inconfidência despertou seu interesse?
Sempre achei que nós, os ficcionistas, estamos em dívida com a Inconfidência. Me parece que não existe uma obra que retrate o contexto histórico e social da Inconfidência em toda a sua pluralidade. A visão que a gente tem é, ainda, sobretudo escolar. O que estou tentando fazer é um trabalho mais abrangente, em termos de ficção, de recriação da Inconfidência no seu todo.
Acredito que não há outro movimento com a envergadura e o alcance da Inconfidência Mineira. É através dela que Minas faz o que eu chamo de invenção do Brasil. A concepção da nação Brasil se origina no pensamento dos inconfidentes, como diz a famosa frase de Tiradentes: “se todos nos unirmos, podemos fazer desse país uma grande nação”.
Como foi o processo de pesquisa e produção do livro?
Esta pesquisa está com mais de 10 anos. Fiz algumas viagens aqui em Minas e li dezenas de livros, notadamente, os famosos Autos da Devassa, além de muitas outras obras, a favor e contra a Inconfidência. Li, inclusive, trabalhos de inimigos mortais da Inconfidência, da corrente de historiadores e intelectuais que contesta a própria existência da Inconfidência Mineira.
Qual o foco da história da Saga do Caminho Novo?
Este volume mostra, sobretudo, o trágico momento da queda dos conspiradores. A história começa no Rio de Janeiro, seguindo o padre que entregou Tiradentes ao vice-rei depois de ser ameaçado. Pela sua culpa, ele sai desembestado para Minas, para tentar salvar os conspiradores. Os idos de maio acompanha os passos desse homem, que é um personagem real e, no livro, um trabalhador clandestino tentando salvar a revolução.
Depois que Tiradentes é preso no Rio, a repressão se deflagra de forma violenta, brusca e impiedosa. Todos são apanhados de noite, postos a ferros, gargalheira, algemas e arrastados para a prisão.
E começa aquilo que, no segundo volume, vai ser o reinado do terror. Aí estarão presos e virão os interrogatórios. No terceiro, que eu chamo de Um pároco na corte, ou despojos, a maioria está nas masmorras do Rio de Janeiro, na Ilha das Cobras, com Tiradentes. E está correndo o processo que vai culminar no degredo para todos, com exceção de Tiradentes, que é enforcado e esquartejado.
Qual a importância da luta dos inconfidentes para o nosso contexto atual?
Ela nos fortalece como cidadãos, mostrando que, nas nossas raízes, homens simples já sonhavam com a independência, com a soberania nacional, que é um patrimônio inestimável. Muitos deles se acovardaram, mas isso não anula sua mensagem. Houve momento em que tiveram consciência da iniqüidade daquele domínio e da necessidade da independência, da liberdade.
Nesses tempos de abuso, de aviltamento da soberania dos povos, a mensagem é essa: nós temos de continuar o sonho de Tiradentes, fazer prevalecer a nossa soberania e desenvolvê-la ao máximo, dar a ela o máximo de sustentação.
Como este livro se relaciona com as temáticas tratadas em suas obras anteriores?
Toda minha literatura é comprometida com o sonho e os pesadelos dos ideais revolucionários. Eu fiz a tetralogia Os Guaianãs, que publiquei até 1975, dentro dessa perspectiva de revolução. Em 1976, fui à União Soviética e vi com meus olhos as fendas no sistema, as manifestações de fragilidade, de distanciamento dos postulados iniciais da vida socialista, de relaxamento por parte dos governantes e do Partido Comunista.
Fiz então um livro com mais de mil páginas, com a idéia de uma revolução que começaria no Brasil e, no seu processo, salvaria o socialismo e acabaria com o capitalismo no vórtice de uma 3ª Guerra Mundial. Era minha incursão na futurologia. Por que a futurologia? Porque o presente não prestava.
Mas, quando terminei de escrevê-lo, o que se esfacelou foi justamente a União Soviética… Então perdi tudo aquilo e fiquei assim, sem presente nem futuro… o que me remeteu ao passado, à Inconfidência Mineira.