Benito Barreto faz parte daquele grupo de escritores mineiros responsável pelo mapeamento da biodiversidade humana de Minas Gerais.
Mais do que por ensaios poluídos de termos técnicos e de gíria acadêmica, são a ficção e a memorialística mineiras que têm sido capazes de tal empresa. A necessidade e a urgência desse mapeamento resultam do fracasso dos nossos historiadores clássicos e seus sucessores em cobrirem a totalidade da rica realidade humana de Minas. Em meu estudo intitulado Histórias submersas no rio que não quer morrer, mostro que, no conjunto bicentenário da historiografia mineira, existe muito pouco de seus componentes indígena, africano, judaico e galego – e mesmo o que há ali de mais minucioso está podado por intolerável censura religiosa e pseudo-moralista.
Estávamos em 1962, plena época pós-Kubitschek e pré-ditadura, quando conheci o escritor Benito Barreto, então apresentado à imprensa por Jorge Amado como auspiciosa novidade na literatura brasileira. Barreto era meu vizinho e nós, moradores em uma república, fomos a seu apartamento para ver de perto os dois escritores. No meu exemplar do seu Plataforma Vazia, lançado naquele dia, está lá o autógrafo dele e de Jorge Amado. Hoje pergunto: quem me teria surrupiado esta preciosidade? Era um tempo feliz e havia um entusiasmo esquerdista em todas as conversas, pois a vitória de Guevara e Fidel contra Batista era muito recente. Depois vieram os anos sombrios após o golpe de 1964 e, só com o passar do tempo, pude perceber a engenhosa construção literária de Barreto.
Vieram outros três romances na mesma linha: Capela dos homens (1968), Mutirão para matar (1974) e Cafaia (1975) afinal compondo uma tetralogia denominada Os Guaianãs. A escolha do nome botocudo merece os maiores aplausos, pois se existe povo espezinhado pelos historiadores, nisso em coro com os genocidas do passado e do presente, é essa gente brava e indomada, autenticamente nacional e descendente dos gloriosos incas, que, por sinal, preferiu ser extinta do que ser escrava.
Agora me vejo diante de outro artefato literário de Benito Barreto, Os idos de maio, no qual tudo o que do mundo inconfidente os Autos da devassa escondem o tenaz artista procura recriar. E nele mais do que nos outros livros o autor se esmera na linguagem da época… o linguajar setecentista que mais fascina os estudiosos e qualquer leitor.
O mundo inconfidente, com muito ouro, diamante e interesses, inclusive internacionais, em jogo, não poderia ficar sob a versão dos que mandavam ou supunham mandar. Sua verdadeira fauna é composta de gente que habitaria vários livros tão intrigantes como Os idos de maio. Houve quem lamentasse não ter surgido um Homero, um Vergílio ou um Camões para relatar os episódios épicos ocorridos em Palmares. Pergunto: e o que dizer dos palmares mineiros vividos nos quilombos do Ambrósio, do Cascalho e outros? E do genocídio indígena de Cristais, da Mata do Peçanha, da Farinha Podre, dos Aimorés, dos Acaiacas e aqueles dos vales Doce e do Mucuri? E da guerra entre Cariris e Aimorés (esta de algum modo presente em Grande sertão, de Rosa)?
E por falar neste, sua criação suscitou no escritor da Galiza, Valentim Paz-Andrade, o estudo Galeguidade na obra de Guimarães Rosa, de 1983. Ora, tendo em mãos o apurado esforço de Benito Barreto em compor os diálogos de Os idos de maio, será inevitável a tentação de buscar o cruzamento genealógico dos diversos sotaques mineiros, não só com galeguidades, mas com falas de bantos, botucudos e judeus…
Quando me empossei no Instituto Histórico, percebi que me fora posto um desafio, o de elogiar meu patrono, um suposto traidor dos inconfidentes. Contrapus a versão muito mais provável de que ele fora vítima de chantagem forjada pelos homicidas de Cláudio Manoel da Costa. Eis aí um enredo que, se eu tivesse o invulgar talento de Benito Barreto, enfrentaria com destemor e vibração.
João Amilcar Salgado
Escritor memorialista, professor e pesquisador em História da Medicina, da UFMG.