Achei notáveis as reconstruções de cenas da Inconfidência Mineira que só alguém com grande conhecimento do tema poderia ter feito. A montagem dos diálogos e dos episódios está, sob o ponto de vista histórico, sem dúvida, correta, não obstante a liberdade criativa de que dispõe o escritor. Não tenho dúvida de que o leitor comum atento terá plena idéia do que foram os fatos daquela fase da História de Minas e do Brasil.
Infelizmente, hoje em dia, para meu desgosto e creio, também, do autor, a Universidade se recusa a ver qualquer importância na Inconfidência Mineira ou nos Inconfidentes, considerando os historiadores (e os autores, em geral, presume-se) que dão atenção e relevo ao tema, como retrógrados e ultrapassados, para não dizer errados. A tese predominante hoje na Universidade é a de que, primeiro, a Inconfidência sequer existiu…
Voltando ao romance, quero dizer que me agradaram muito as reconstituições imaginárias. Lembro-me das cenas com o Aleijadinho e Irmão Lourenço, José Álvares Maciel e o Barbacena, Alvarenga Peixoto e Bárbara Heliodora e, especialmente, do encontro dos dois cabeças, sem dúvida líderes de facções, Tomás Gonzaga e Cláudio Manoel da Costa. Neste último, perspicaz a anotação de que Gonzaga procurara atirar a culpa de tudo em Tiradentes, na atitude esquiva que já foi objeto de tanto estudo de vários historiadores. Notável também a reconstrução imaginária da conversa final entre o Visconde de Barbacena e sua mulher, descrevendo uma das passagens mais intrigantes e inteligentes da Inconfidência e sua época.
Não pude deixar de notar um comentário elogioso de Gonzaga a Bárbara Heliodora. Eu observei certa vez que, numa das liras de Gonzaga, há referências à beleza de uma certa Lidora, até hoje não identificada. Se dermos crédito às liras, Gonzaga teve ou quis ter um caso com Bárbara, antes do casamento dela com Alvarenga ou mesmo no início desse casamento, quando ele os visitava ou o visitavam em Vila Rica.
Fico por aqui. Os idos de Maio certamente será lido com prazer por quem se interessa pelo romance histórico de alta qualidade.
Márcio Jardim
Historiador, membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.