Posts Categorizados ‘Marco Cena

16
abr
09

Os guaianãs

Tomo I
Ano: 1986
Editora: Mercado Aberto
Capa: Marco Cena / Face Artes

Tomo II
Ano: 1987
Editora: Mercado Aberto
Capa: Marco Cena / Face Artes

Os Guaianãs, de Benito Barreto, obra fundamental da ficção brasileira moderna, permaneceu, por estranho destino, praticamente inédita até o presente. Por motivos de ordem editorial e histórica e pela sua própria monumentalidade, o romance como que desapareceu de circulação, apesar de ter recebido vários prêmios, incluindo o mais famoso da história dos concursos literários do país, o Walmap, em 1967. Neste ano, o júri, composto nada menos que por João Guimarães Rosa, Jorge Amado e Antonio Olinto, concedeu o primeiro lugar, entre mais de duas centenas de obras, a Capela dos Homens, o segundo livro da tetralogia.

Contudo, por uma pouco comum conjunção de fatores, Os Guaianãs, apesar de ter recebido edição completa, inclusive com reedições de Plataforma vazia e Capela dos Homens, não teve a atenção da crítica nem chegou ao conhecimento do grande público, ficando praticamente desconhecido por cerca de duas décadas. Sem dúvida, trata-se de uma flagrante injustiça, pois a obra de Benito Barreto é – ao lado de O tempo e o vento, Grande sertão: veredas, Cem anos de solidão e outros – uma das maiores criações da novelística brasileira e latino-americana deste século.

Tendo sua ação centrada nos sertões do sul da Bahia e, em sua maior parte, do nordeste de Minas Gerais, a obra de Benito Barreto é uma verdadeira epopéia brasileira em que o mundo caboclo/sertanejo, inesperada e involuntariamente, se vê frente a frente com a civilização a da costa, representada pelos fuzis e canhões das forças da ordem, tornando inevitável o paralelo com Os sertões, de Euclides da Cunha. Contudo, no mundo imaginário de Os Guaianãs – talvez exatamente por ser apenas imaginário – a ação se desenrola de forma muito diferente do que no relato rigorosamente histórico de Euclides. E, assim, homens e mulheres comuns se transformam em heróis e heroínas e. diante da morte e da violência, ascendem à posição de verdadeiros protótipos da honra e da dignidade da espécie e da civilização, mesmo que para tanto, paradoxalmente,tenham eles próprios que recorrer à violência armada, única e derradeira forma de fazer frente à barbárie que em avalanches se espraia pelo sertão mineiro.

E é assim que Os Guaianãs se transforma, ao nível do símbolo – isto é, da arte -, numa verdadeira epopéia brasileira e latino-americana. Uma epopéia monumental que, fixando tematicamente o passado, projeta a sombra de um futuro apocalíptico e ao mesmo tempo heróico e cheio de esperança sobre o Brasil e sobre o continente. Porque a história, através da obra de Benito Barreto, não permitiu e não permitirá que pelo menos no plano do imaginário – os deserdados dos sertões do Terceiro Mundo permaneçam anônimos e desconhecidos.




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