Posts Categorizados ‘Os idos de maio

13
abr
09

Romance histórico de alta qualidade

Achei notáveis as reconstruções de cenas da Inconfidência Mineira que só alguém com grande conhecimento do tema poderia ter feito. A montagem dos diálogos e dos episódios está, sob o ponto de vista histórico, sem dúvida, correta, não obstante a liberdade criativa de que dispõe o escritor. Não tenho dúvida de que o leitor comum atento terá plena idéia do que foram os fatos daquela fase da História de Minas e do Brasil.

Infelizmente, hoje em dia, para meu desgosto e creio, também, do autor, a Universidade se recusa a ver qualquer importância na Inconfidência Mineira ou nos Inconfidentes, considerando os historiadores (e os autores, em geral, presume-se) que dão atenção e relevo ao tema, como retrógrados e ultrapassados, para não dizer errados. A tese predominante hoje na Universidade é a de que, primeiro, a Inconfidência sequer existiu…

Voltando ao romance, quero dizer que me agradaram muito as reconstituições imaginárias. Lembro-me das cenas com o Aleijadinho e Irmão Lourenço, José Álvares Maciel e o Barbacena, Alvarenga Peixoto e Bárbara Heliodora e, especialmente, do encontro dos dois cabeças, sem dúvida líderes de facções, Tomás Gonzaga e Cláudio Manoel da Costa. Neste último, perspicaz a anotação de que Gonzaga procurara atirar a culpa de tudo em Tiradentes, na atitude esquiva que já foi objeto de tanto estudo de vários historiadores. Notável também a reconstrução imaginária da conversa final entre o Visconde de Barbacena e sua mulher, descrevendo uma das passagens mais intrigantes e inteligentes da Inconfidência e sua época.

Não pude deixar de notar um comentário elogioso de Gonzaga a Bárbara Heliodora. Eu observei certa vez que, numa das liras de Gonzaga, há referências à beleza de uma certa Lidora, até hoje não identificada. Se dermos crédito às liras, Gonzaga teve ou quis ter um caso com Bárbara, antes do casamento dela com Alvarenga ou mesmo no início desse casamento, quando ele os visitava ou o visitavam em Vila Rica.

Fico por aqui. Os idos de Maio certamente será lido com prazer por quem se interessa pelo romance histórico de alta qualidade.

Márcio Jardim

Historiador, membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.

13
abr
09

Os idos de Maio de Benito Barreto

Benito Barreto faz parte daquele grupo de escritores mineiros responsável pelo mapeamento da biodiversidade humana de Minas Gerais.

Mais do que por ensaios poluídos de termos técnicos e de gíria acadêmica, são a ficção e a memorialística mineiras que têm sido capazes de tal empresa. A necessidade e a urgência desse mapeamento resultam do fracasso dos nossos historiadores clássicos e seus sucessores em cobrirem a totalidade da rica realidade humana de Minas. Em meu estudo intitulado Histórias submersas no rio que não quer morrer, mostro que, no conjunto bicentenário da historiografia mineira, existe muito pouco de seus componentes indígena, africano, judaico e galego – e mesmo o que há ali de mais minucioso está podado por intolerável censura religiosa e pseudo-moralista.

Estávamos em 1962, plena época pós-Kubitschek e pré-ditadura, quando conheci o escritor Benito Barreto, então apresentado à imprensa por Jorge Amado como auspiciosa novidade na literatura brasileira. Barreto era meu vizinho e nós, moradores em uma república, fomos a seu apartamento para ver de perto os dois escritores. No meu exemplar do seu Plataforma Vazia, lançado naquele dia, está lá o autógrafo dele e de Jorge Amado. Hoje pergunto: quem me teria surrupiado esta preciosidade? Era um tempo feliz e havia um entusiasmo esquerdista em todas as conversas, pois a vitória de Guevara e Fidel contra Batista era muito recente. Depois vieram os anos sombrios após o golpe de 1964 e, só com o passar do tempo, pude perceber a engenhosa construção literária de Barreto.

Vieram outros três romances na mesma linha: Capela dos homens (1968), Mutirão para matar (1974) e Cafaia (1975) afinal compondo uma tetralogia denominada Os Guaianãs. A escolha do nome botocudo merece os maiores aplausos, pois se existe povo espezinhado pelos historiadores, nisso em coro com os genocidas do passado e do presente, é essa gente brava e indomada, autenticamente nacional e descendente dos gloriosos incas, que, por sinal, preferiu ser extinta do que ser escrava.

Agora me vejo diante de outro artefato literário de Benito Barreto, Os idos de maio, no qual tudo o que do mundo inconfidente os Autos da devassa escondem o tenaz artista procura recriar. E nele mais do que nos outros livros o autor se esmera na linguagem da época… o linguajar setecentista que mais fascina os estudiosos e qualquer leitor.

O mundo inconfidente, com muito ouro, diamante e interesses, inclusive internacionais, em jogo, não poderia ficar sob a versão dos que mandavam ou supunham mandar. Sua verdadeira fauna é composta de gente que habitaria vários livros tão intrigantes como Os idos de maio. Houve quem lamentasse não ter surgido um Homero, um Vergílio ou um Camões para relatar os episódios épicos ocorridos em Palmares. Pergunto: e o que dizer dos palmares mineiros vividos nos quilombos do Ambrósio, do Cascalho e outros? E do genocídio indígena de Cristais, da Mata do Peçanha, da Farinha Podre, dos Aimorés, dos Acaiacas e aqueles dos vales Doce e do Mucuri? E da guerra entre Cariris e Aimorés (esta de algum modo presente em Grande sertão, de Rosa)?

E por falar neste, sua criação suscitou no escritor da Galiza, Valentim Paz-Andrade, o estudo Galeguidade na obra de Guimarães Rosa, de 1983. Ora, tendo em mãos o apurado esforço de Benito Barreto em compor os diálogos de Os idos de maio, será inevitável a tentação de buscar o cruzamento genealógico dos diversos sotaques mineiros, não só com galeguidades, mas com falas de bantos, botucudos e judeus…

Quando me empossei no Instituto Histórico, percebi que me fora posto um desafio, o de elogiar meu patrono, um suposto traidor dos inconfidentes. Contrapus a versão muito mais provável de que ele fora vítima de chantagem forjada pelos homicidas de Cláudio Manoel da Costa. Eis aí um enredo que, se eu tivesse o invulgar talento de Benito Barreto, enfrentaria com destemor e vibração.

João Amilcar Salgado

Escritor memorialista, professor e pesquisador em História da Medicina, da UFMG.

13
abr
09

Inconfidentes de alma e osso

A Saga do Caminho Novo compõe-se da trilogia em que o romancista Benito Barreto dá vida à Conjuração Mineira de 1789. Conhecido a partir de controvertidas interpretações apuradas pelas circunstâncias históricas, ao fim da colônia e ao longo do império e da república, o episódio sempre atraiu o interesse de ficcionistas e poetas. Agora, rende-se ao enredo surpreendente e fascinante que lhe atribui o engenho de Barreto, debruçado sobre o teatro dos acontecimentos como espectador pronto para entrar em cena.

O primeiro volume, Os idos de maio, compreende o trecho crítico no qual se desfaz a conspiração, na rede de delações e prisões que se estende pelo Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais, como o chamou Pedro Nava. Narrada a queda, hão-de vir, em seguida, os volumes dedicados ao terror e aos despojos. O terceiro e último se passa no Rio de Janeiro, onde começa a narrativa do presente tomo, local do desfecho trágico da epopéia do “animoso alferes” evocado por Cecília Meireles.

Benito Barreto galopa pela Estada Real, e o real, para ele, são os dias de diluição do sonho mineiro dos conjurados de 1789, os idos de maio do ano terrível. Insurge o autor em meio à trama, acompanha as personagens nas suas tribulações, vê a conspiração arruinar-se, enfrenta o terremoto que se seguir à denúncia.

Presente, de fato, nos caminhos de Minas, ele se desloca agilmente, à procura de luz na escuridão silenciosa do interdito. Parte da ilha do Governador, onde se urde crucial envolvimento, rumo ao porto da Estela, para subir a serra, pousar nas estalagens, escutar os rumores, penetrar nos labirintos da surda revolta.

Encontra personalidade que se esconderam nos interstícios da notícia histórica, desvela a participação que tiveram no curso trepidante daqueles momentos de angústia e aflição, anota-lhes as razões, recompõe os itinerários da gente ensandecida pela opressão e arrastada pelo delírio da liberdade.

Um grande romance nasce dessa devassa assombrosa. Quem imaginaria o irmão Lourenço, o misterioso eremita do Caraça, envolvido nos capítulos mais intrincados da rebelião nascente? E mestre Lisboa, o escultor genial, buscando, com seus ferros de entalhar, destruir os grilhões da colônia?

Toda aquela gente fala. São as vozes de Minas. O autor oferece aos leitores a audição perfeita do velado parlatório em que se transformou a capitania rebelada. As personagens se movem nas palavras, cuja, “estranha potência”, como diz o Romanceiro ceciliano, sustenta a dimensão fabulosa que o movimento alcança na ficção de Benito Barreto.

O escrito José Castello, certa vez, recorreu ao desabafo de uma amiga para concluir que as palavras “servem só para nos distrair da incerteza”. Ao navegar nesse mar de palavras em que se afundam os protagonistas da tormenta, Barreto transformar o enigma do verbo inconfidente numa sonora certeza: tudo isso foi o que eles na verdade disseram.

“Essas vidas, em que se enraízam as nossas e a nossa formação como povo, a que se deram, em sacrifício, muito significam para mim”, contou-me o romancista, em emocionada confidência, ao explicitar os motivos que o levaram à Saga do Caminho Novo.

Longos anos ele dedicou ao trabalho, trazendo para suas páginas os inconfidentes de alma e osso. E sua viva voz. A primeira parte anuncia a grandiosidade do conjunto. Benito Barreto torna a Inconfidência Mineira uma história de nossa gente e nos enche de prazer com a leitura dessa memória encantada.

Ângelo Oswaldo de Araújo Santos

Escritor e prefeito de Ouro Preto

13
abr
09

Romance recria Inconfidência Mineira

Escritor Benito Barreto comemora 80 anos com lançamento de trilogia

O escritor mineiro Benito Barreto lança, no dia 27 de abril, o romance histórico Os idos de maio, em que recria, ficcionalmente, a derrocada da Conjuração Mineira de 1789. O lançamento acontecerá a partir das 19h30, no foyer do Palácio das Artes, avenida Afonso Pena, 1537, Centro, Belo Horizonte/MG.

Os idos de maio narra o momento crítico no qual se desfaz a conspiração na rede de delações e prisões que se estende pelo Caminho Novo. Criado no século XVIII, o Caminho é uma variante da Estrada Real e dava acesso à região de Minas Gerais na época do Brasil Colônia, ligando Vila Rica ao Rio de Janeiro.

Os personagens da Inconfidência ganham vida na reconstrução ficcional do autor, que aliou liberdade criativa a extensa pesquisa e amplo conhecimento do tema para criar sua versão dos acontecimentos históricos. Barreto buscou recriar não só a participação dos inconfidentes mais notórios, mas também de personagens que se esconderam nos interstícios da História oficial ou que estiveram à margem dos acontecimentos.

Ao percorrer junto com esses personagens os momentos cruciais da conspiração, o autor se propôs jamais extrapolar os limites da verossimilhança com a realidade factual e existencial da Inconfidência. O livro é a primeira parte da trilogia Saga do Caminho Novo, que abordará ainda o terror e os despojos que se seguiram à queda e à prisão dos integrantes do movimento.

O autor

Benito Barreto nasceu em 17 de abril de 1929 na cidade de Dores de Guanhães, Nordeste de Minas. Além de escritor, é também jornalista e empresário.

Em sua obra literária, destaca-se a tetralogia Os Guaianãs, formada pelos livros Plataforma vazia (1962), Capela dos homens (1968), Mutirão para matar (1974) e Cafaia (1975). A obra, já em sua 3ª edição, recebeu diversos prêmios e teve dois de seus volumes traduzidos para o russo e publicados na antiga União Soviética em 1980, com tiragem de 100 mil exemplares. A tetralogia foi reeditada em dois tomos pela editora Mercado Aberto, de Porto Alegre, em 1986.

Os Guaianãs é uma referência importante da prosa regional brasileira e narra uma heróica história de resistência, tendo como tema principal uma guerrilha rural hipotética nos sertões baianos e mineiros durante as décadas de 1960 e 70. É uma saga moderna, de cunho essencialmente épico, que mostra a fertilidade imaginativa e o vigor estilístico do autor.

Barreto publicou ainda Vagagem (1978), que se apresenta como um livro de “viagens e memórias sem importância”; A última barricada (1993), romance em folhetins improvisados, que reúne colunas publicadas no jornal Estado de Minas e anotações inéditas, em que ainda ressoam temas e personagens de Os Guaianãs; e Um caso de fidelidade (2000), que reflete as incertezas do mundo globalizado e pós-ideológico que se sucede à derrocada do socialismo.

Rachel Cardoso Barreto

13
abr
09

A saga do caminho novo

Mineiro, de Dores de Guanhães (a antiga Capelinha de Nossa Senhora das Dores, a Capela dos Homens de seus livros), teve sua trajetória de vida marcada pela região em que se criou, pela crença e militância comunistas, pelas vivências diversas acumuladas em suas múltiplas atividades.

Sua obra literária tem como marco maior a tetralogia Os Guaianãs, referência indiscutível de nossa prosa regional, assunto de teses e dissertações, de estudos e artigos, de autores os mais diversos.

Nela, como em tudo o que faz e escreve, estão presentes, de forma preponderante, as causas e as lutas do homem, por seu espaço e por suas idéias e crenças.

O que leva a esta Saga do Caminho Novo, a esta reconstrução da Conjuração Mineira, com todo o seu povo a tomar vida, a se fazer gente, mais que personalidades de empoeirados livros de História.

Construída na forma de uma trilogia, Os idos de maio é o seu volume inicial e fala dos momentos e movimentos da derrocada da Conjuração, da queda e prisão de seus integrantes, do que faziam os que participaram deste momento, ou só o assistiam.

Vinício de Faria Barreto

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