Posts Categorizados ‘Ziraldo

16
abr
09

Cafaia

Ano: 1975
Editora: Interlivros
Capa: Ziraldo
Ilustrações: Amilcar de Castro

Livro traduzido para o russo

Com este Cafaia Benito Barreto completa a saga dos seus Guaianãs, um povo de mineiros e nordestinos em cuja vida ressoa, no entanto, toda a problemática existencial do homem brasileiro e do homem de qualquer parte deste nosso conturbado fim de século. Um fim de século que é, também, o apagar das luzes do segundo milênio da civilização ocidental e, mais que isso, o momento crucial da guerra de todos os tempos entre o homem e o meio, entre o indivíduo e a massa e entre o ser e a máquina.

Se, como o admitem os céticos e os poetas do desespero, o próprio Criador já há muito tempo desistiu de afinar a orquestra caótica do mundo que concebeu, dá-nos isso uma pauta para projetarmos e medirmos a nossa perplexidade em face das engrenagens que, por nossa vez, criamos e nos impusemos.

Estão aí dois mil anos de civilização cristã e de pedagogia catequética, dois mil anos de cultura e de massificação, de acumulação de meios e de esforços tecnológicos, de.racionalizações, enfim, mas o homem, conquanto a afogar-se e a sangrar sob as armações metálicas do mundo, teima em sobreviver como indivíduo. Gera, ele próprio, os mecanismos da escravidão mas quer ser livre; edifica sistemas colossais e, contudo, se arrepia quando vê que o reduziram a uma ficha. Menos poderoso que os seus deuses, é, todavia, muito mais presunçoso e audaz que qualquer deles e, por isso, ei-lo que, como o feiticeiro da lenda ou o físico da bomba, desencadeou elementos e energias que já não sabe ou não pode controlar.

Não sabe ou não pode mas QUER. E teima. E luta E morre. E aí sua grandeza.

Neste Cafaia de Benito Barreto como, de resto, em toda a sua obra, o que sobretudo vê-se é a silhueta musculosa deste homem de, todos os tempos, encontradiço em qualquer lugar, que jamais se rende e que de vez em quando emerge na sua nudez primitiva como para apenas reafirmar que não morreu. E mais para dizer-nos, ou relembrar-nos, de que mesmo quando não possa ganhar contra a guerra contra o sistema, deve o homem aceitar, ainda assim, o desafio das batalhas, o que vem a ser uma versão atualizada da velha canção de amigo do rei trovador: navegar é preciso, viver não é preciso…

Laura Barreto, estudante

16
abr
09

Mutirão Para Matar

Ano: 1974
Editora: Interlivros
Capa: Ziraldo

Sendo o terceiro volume da tetralogia Os Guaianãs, Mutirão Para Matar,  de Benito Barreto, representa, para o autor, um avanço da técnica ficcional e para o público, vigorosa reafirmação da linha narrativa vinculada ao regionalismo. A um regionalismo que através da conscientização humanística atinge o vasto plano maior do universal. Livro que transfunde a linguagem referencial – mimética em sopro humano numa visão lírica do homem – Mutirão Para Matar revela também um dimensionamento, ao nível da ficção, da tragédia maior do nosso tempo, no Brasil e fora dele – a tragédia da violência desencadeada e generalisada como forma de vida peculiar às comunidades contemporâneas.

Estribando sua narração em dois focos discursivos primordiais – a primeira pessoa (visão do personagem) e a terceira pessoa (visão do autor), o romancista tece sua estrutura partindo do embasamento fundidor dos dois planos narrativos que galvanizam emoções e fatos de um grupo de homens cercados pelas forças da violência criminosa até nos levar ao plano metafórico da analogia: são apenas estes homens que estão cercados, ou antes -  este é o espetáculo do cerco de milhares de homens do mundo inteiro? Livro que busca captar e expressar o que há de mais fundo e permanente no ser humano – seu sonho de liberdade e seu direito à vida – Mutirão Para Matar significa ainda um avanço para a literatura nacional de filiação romântico-naturalista de cunho social que percorre todo o nosso processo literário, atingindo agora um nível de maturidade e domínio da linguagem que se faz poética sem perder sua função denotativa de explicitar as substâncias temáticas da obra.

O mutirão que se passa em um sertão puramente imaginário, um sertão que não há, está, entretanto, vivo e presente em tudo que há e que vemos e percebemos em torno de nós, em torno de todos.

O romance tem seu desenvolvimento num quarto volume, CAFAIA, o Diabo do Povo, que autor e editora nos prometem para breve.

Fritz Teixeira de Salles

16
abr
09

Capela dos Homens

Primeira Edição:
Ano: 1968
Editora: Gráfica Record Editora
Capa: Ziraldo

Segunda Edição:
Ano: 1976
Editora: Interlivros
Capa e ilustrações: Januário

Livro traduzido para o russo

Capela dos Homens é livro de ação em que ressoa muito da revolta característica de nosso tempo, fato que, por si só, não bastaria para singularizar o romance de Benito Barreto, isto porque a literatura, via de regra, tem na insatisfação e no desespero humanos a sua matéria-prima.

Torna-o singular o tratamento pessoal, algo brumoso, com que o autor trabalha o seu mundo ficcional, território e gentes com vida própria na apreciação do crítico Antônio Olinto e dos quais o grande Guimarães Rosa dizia que cheiram fortemente a terra e a mato. Aqui a revolta não é uma explosão circunstancial: apresenta-se, antes, como estado de espírito, uma opção existencial ou posição do homem diante da vida e dos poderes com os quais nos defrontamos no mundo moderno.

O romance apresenta-se formalmente estruturado em duas partes – a primeira uma reconstituição, em contraponto, que transporta o leitor ao passado obscuro de Capela dos Homens, violento e torvo, desde que marcado pela presença física do Demônio, e como que o prepara para a segunda parte – a semana que se segue, dia após dia, à volta ao lugar de uma espécie de filho pródigo, certo jovem em cuja pessoa o médico local vê o elemento de combustão destinado a deflagar o incêndio da tragédia.

O contexto, vasto painel em dois planos, põe o leitor em convivência com uma galeria de tipos que é talvez das mais vigorosas encontradas em um só livro, na literatura brasileira contemporânea, – homens e mulheres cuja humanidade, a despeito de termos de adivinha-lo, às vezes, se afirma na violência do amor, do ódio, na passionalidade com que buscam a justiça ou na força com que se aferram aos seus valores, até mesmo na violência do seu desânimo.

Dir-se-ia que aí o conflito estala porque o amor não quer fronteiras e a liberdade não aceita limitações, ou já não as aceita· porque – e quem diz é Sílvio Guaianã, figura de anti-herói ou herói da revolta sem esperança:

- O tempo está maduro para o homem.




Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.